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A ilha, de Aldous Huxley

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Por Pedro Fernandes


O romance de tese é costumeiramente descrito como produto do naturalismo. Trata-se de uma prosa narrativa a serviço da demonstração de um determinado ponto de vista assumido pelo escritor. Mas, atenção! Em menor ou maior grau, toda obra literária, porque construída na e pela linguagem, está interessada em apresentar ou defender certa maneira de compreensão do mundo. Isto é, toda obra literária não está apartada de uma esfera ideológica como foi possível passar acreditar ingenuamente a partir de certo momento da história da literatura. O que, entretanto, favorece o conceito do romance-tese, é que, neste os pontos de vistas são muito transparentes e participam no enforme das personagens, situações e mesmo da atmosfera da narrativa; ou seja, não se trata meramente de uma incursão dispersa através da qual se materializa direta ou indiretamente uma dissertação sobre um tema ou uma questão qualquer. Outra observação pertinente: não se trata de uma forma presa ao período …

George Orwell e a podridão dos livros

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Por Javier Borràs



Um livro velho fede a moscas mortas, o pó rasga a garganta e deixa a língua pesada. Mas, durante o frio inverno londrino, na livraria Booklover’s Corner, ele precisa carregar quilos de romances em degradação, protegido com um lenço e sem aquecimento porque se não os vidros embaçam e os clientes não podem ver o mostruário. Quando um possível comprador entra pela porta, Eric Blair deve mostrar um sorriso e, na maioria das vezes, mentir. Odeia os clientes comuns, em especial as irritantes senhoras que buscam presentes para seus netos e os compradores pedantes de edições especiais, esses que acariciam a capa do livro que acabam de adquirir e o abandonam para sempre numa estante, onde acumula esse espesso purê de pó e cadáveres de insetos a que todo dia deve enfrentar este cansado livreiro. Durante seu longo turno de trabalho, deve se encarregar de raros ensaios que ninguém virá recolher, recusar quilos de romances que um senhor com odor a ranço tenta lhe vender, ou encon…

Três possibilidades sobre a Literatura Gay

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Por Luisgé Martín


Em 1897, Oscar Wilde escreveu na prisão de Reading uma extensa carta para seu amor Lord Alfred Douglas, Bosie, reconstruindo a atormentada relação que haviam mantido e que findou com o célebre julgamento no qual o escritor foi condenado a trabalhos forçados por “conduta indecente e sodomia”. Essa carta, publicada em partes pelos herdeiros pela primeira vez em 1905 com o título de De profundis, constitui de algum modo a pedra fundamental da literatura gay moderna, essa literatura que fala sobre “o amor que não se atreve a dizer seu nome”, como proclamava um verso do próprio Bosie.
Esse amor continuou sem atrever-se a dizer seu nome durante muito tempo. Thomas Mann ocultou o amor carnal entre Gustav von Aschenbach por Tadzio através de uma sublimação estética e espiritual. Konstantinos Kaváfis apenas permitiu que circulassem alguns de seus poemas em vida. E. M. Forster terminou de escrever Maurice, em 1914, mas não deixou publicá-lo se não depois de sua morte, em 1971.…

Inventário, de Heleno Godoy

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Por Pedro Fernandes



Duas coisas chamam atenção sobre a caprichada edição agora publicada pela Martelo Casa Editorial: a primeira delas é a celebração de um nome da nossa poesia contemporânea antes do ponto final de sua obra só colocado se duas tristes circunstâncias se imprimem, a morte do poeta ou sua desistência da lide com a palavra; a outra é a demonstração de que um projeto literário de grande envergadura estético-formal é sempre possível no âmbito de uma literatura que já nos deu tantos nomes de inegável talento para a criação e logo de contribuição indispensável à formação de um universo multissignificativo para a consolidação de um cânone nacional capaz de interpor fronteiras com outros de maior durabilidade e seara na qual todas as obras que vieram depois não terão deixado de dela se aproximar. As duas coisas são de grande valia.
Que a obra ainda é uma possibilidade de tocar a eternidade, esse lugar onde nunca nenhum de nós e nem mesmo os de presença assegurada num cânone uni…

Boletim Letras 360º #223

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Aqui está mais uma edição do Boletim Letras 360º. Há 223 semanas que mapeamos notícias diversas sobre o universo literário e de interesse do blog e divulgamos em nossa página no Facebook, que agora respira com mais de 65 mil amigos. Antes de passarmos às novidades, deixamos impresso nossos agradecimentos pela companhia e, por levar o nome do Letras adiante.



Segunda-feira, 12/06
>>> Brasil: O livro pouco conhecido de Julio Verne que a Editora Carambaia trará ao país ganha data de publicação
O testamento do excêntrico, anunciado por aqui noutras duas ocasiões, chega às livrarias em agosto. De 1899 e um dos últimos títulos publicados pelo autor, a obra apresenta os Estados Unidos como um jogo de tabuleiro. Um milionário excêntrico e solitário de Chicago decide deixar toda a sua herança para o vencedor de um jogo disputado por sete concorrentes. De trem, a pé ou a cavalo, de barco ou de bicicleta, os participantes percorrem o país inteiro, pulando de casa em casa, ou de estado ou …

Entrelugar

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Por Rafael Kafka


Li On The Road quando tinha uns 19 anos de idade. Na época, o livro me serviu de mote para ampliar meu modo de ser e começar a querer viver em um ritmo frenético ligado à arte e à cultura em geral. Como não tinha dinheiro, nem coragem, assumi uma postura beat improvisada: fazia de cada passeio um convite a olhar a realidade com olhos diferentes e a fazer do movimento constante o alimento de minha alma. Naquele momento, fã de Álvaro de Campos e outros heterônimos sensacionistas de Fernando Pessoa, decidi que o caminho não dava em lugar algum e o maior prazer da vida era curtir as impressões, intelectuais e sensoriais, que ela nos oferecia.
O tempo passou e eu, leitor assíduo, fui convidado a uma postura de engajamento. Na verdade, o engajamento sempre existiu em mim de forma depurada, convivendo com um estranho sentimento de niilismo que creio ter pegado de minhas leituras irracionalistas e assumido mais por uma moda neoliberal, com alguma cultura, a qual prega que de …

O homem sem doença, de Arnon Grunberg

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Por Pedro Fernandes




A reinserção de Arnon Grunberg entre as obras mais recentes publicadas no Brasil corrige um grave desvio que colocava leitores em condição distanciada de uma das melhores prosas da literatura contemporânea. Desvio porque, depois dois primeiros títulos editados por aqui – Dor fantasma e Amsterdã Blues – já passara umadécada que a obra do escritor holandês não era traduzida. Nessa correção, O homem sem doença veio depois de Tirza.

E, argumentos não faltam para justificar a grandiosidade da obra de Grunberg, mas um é suficiente: trata-se de uma literatura que dialoga proximamente com universos como os de Franz Kafka, Samuel Beckett ou os de Herman Broch, que são atmosferas envoltas pela mesmidade da instituição burocrática, do onírico, do homem preso na tessitura de suas próprias ambições e incapaz de romper com o acaso e seus desdobramentos. Isto é, o homem nos seus piores pesadelos e condenado a neles permanecer porque, queira ou não, a vida não é feita apenas do es…

Milena Jesenská, muito além de namoradinha de Franz Kafka

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Por Juan Bonilla

Eis um livro maravilhoso: emocionante, perturbador, difícil de esquecer. Foi escrito por Margarete Buber-Neumann e a edição mais recente publicada no Brasil data de 1987. Intitula-se Milena; nome, portanto, mais adequado que o Milena, a amiga da Kafka, com que foi publicado noutras traduções ao redor do mundo. Aliás, não haveria título mais injusto para uma obra em que Kafka aparece apenas num capítulo – comovedor, sem dúvida – apesar de Milena ser correspondente do escritor, de quem traduziu sua obra para o tcheco e com quem manteve uma relação sentimental que ele, por temer a vida, por sentir-se “perdido no abismo de Milena”, tratou de não levar adiante. Os leitores, entretanto, desprovidos do nome famoso justaposto ao de Milena, construirão uma imagem melhor elaborada dessa personagem, sobre sua vida, sua garra, sua escrita, por si só significativos ao ponto de Buber-Neumann ter-lhe dedicado este livro que independe do lugar do autor de A metamorfose ao seu lado.
B…

J. R. R. Tolkien, o mito desconstruído

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John Ronald Reuel Tolkien, o escritor que entreteve gerações de leitores do mundo inteiro com o seu Legendarium (assim descreveu sua mitologia sobre a Terra Média) nasceu em 3 de janeiro de 1892 em Bloemfontein, Sul da África. Essa data nunca passará despercebida às suas legiões de fãs. Se para a maioria dos críticos modernos o mito é sinônimo de mentira ou falsidade, para o autor de O Hobbit, O senhor dos anéis e O Silmarillion é a única maneira de certas verdades transcendentes poderem ser expressas de um modo tangível. Essa fantasia que parte da realidade, que consegue prender o leitor na narrativa e a assuma como verdadeira, é a chave mestra da obra de Tolkien, marcada por enredos enraizados na natureza humana: o eterno embate entre o Bem e o Mal; a irresistível tentação pelo Poder; a amizade, lealdade e idealismo; e a elevação dos sujeitos mais humildes à categoria de heróis.
Aos três anos de idade, Tolkien se mudou com sua mãe, Mabel, e seu irmão para a Inglaterra por motivos …