sábado, 25 de fevereiro de 2017

Boletim Letras 360º #207

Walt Whitman. Nos EE UU publicam um inédito do poeta quando este se aventurou pela prosa.


Estas foram as notícias publicadas durante esta semana em nossa página no Facebook. 

Segunda-feira, 20/02

>>> Portugal: Um site disponibiliza informações notáveis sobre o escritor português Raul Brandão. Em 2017, cumprem-se 150 anos do seu nascimento

As celebrações começaram ainda em 2016 com a primeira edição do Húmus — Festival Literário de Guimarães. No dia 8 de março, o evento regressa, pouco antes da data oficial do aniversário. A grande novidade antes disso é o lançamento de um site inteiramente dedicado a Brandão, que procura “agregar informação sobre o autor”. A sua biografia, a sua bibliografia, informação sobre os seus lugares, o seu espólio e um arquivo onde possam se guardar tudo o que se vai publicando sobre o escritor e sua obra. Tudo fará parte do arquivo online. Além de vídeos com textos de Raul Brandão lidos por autores como Lídia Jorge, Afonso Cruz, Bruno Vieira Amaral e Pedro Mexia. Brandão nasceu no dia 12 de março de 1867 no Porto e foi autor de uma influente obra literária e jornalística, que inclui títulos como Húmus (1917), Os pescadores (1923) ou As ilhas desconhecidas (1926). Para ver o site vá aqui.

>>> Estados Unidos: Uma novela inédita de Walt Whitman ganha edição online

Não mudará em nada a história da literatura estadunidense. Mas a descoberta de Vida e aventuras de Jack Engle, uma novela esquecida de Walt Whitman, autor fundamental da poesia estadunidense, despertou um grande interesse nos círculos literários. A obra foi publicada em fascículos num jornal nova-iorquino em 1852 e possivelmente se o seu autor não fosse Whitman teria ficado totalmente esquecida. Trata-se de uma história melodramática ao estilo de Charles Dickens na qual não falta nem mesmo um órfão, um advogado sem escrúpulos, alguns virtuosos e umas quantas reviravoltas folhetinescas de uma trama que tentava mostrar como era a vida nova-iorquina naquele tempo. O “New York Times”, que revelou a descoberta da história, conta como Zachary Turpin, um estudante da Universidade de Houston, repara esta lacuna na bibliografia do poeta. O texto de 36 mil palavras começou a ser reeditado a partir desta segunda num periódico dedicado ao estudo obra de Walt Whitman; depois será transformado em livro pela Universidade de Iowa. O trabalho vem a lume sobre a reprovação do próprio autor de Folhas de relva, que, não muito orgulhoso de seu passado literário, encarregou-se pessoalmente de esconder seus escritos e só falou desta época sobre o trabalho como carpinteiro. Em 1891, quando lhe propuseram publicar suas primeiras ficções disse que essas obras eram “toscas e juvenis” e logo cairiam no esquecimento. Entretanto, Franklin Evans, um dos raros trabalhos conhecidos do gênero prosa foi, no seu tempo, sua obra mais vendida. Não é a primeira vez que Turpin encontra uma obra de Whitman: em 2016, o pesquisador anunciou a descoberta de Manly Health and Training, o que hoje se poderia definir como um tratado de autoajuda avant-la-lettre, que o autor publicou em 1858 no The New York Atlas.

Terça-feira, 21/02 

>>> Brasil: Desaparecido há quase trinta anos, o caderno de capa preta com estudos de perspectiva, aulas de alemão, esboço de obras e relatos pessoais de Anita Malfatti foi encontrado

Estava numa caixa no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). O caderno é o único diário pessoal da artista, onde ela registrou o nervoso dia a dia do seu début. Alguns trechos do diário foram editados para a biografia de Malfatti publicada em 1985 por Marta Rossetti, antiga diretora do IEB; mas, a autora morreu e nunca se soube do paradeiro do material. Um dos pontos fortes nos registros são os trechos que não entraram no livro de Rossetti, que, na opinião dos pesquisadores, atenuou os ataques de Anita ao mecenas José de Freitas Valle, o todo-poderoso da cena artística da época e responsável pela indicação de pintores a uma cobiçada bolsa de estudos em Paris. Freitas esnobou as pinturas da modernista, que lhe trata, nesses escritos como um homem “engorgitado de injeções de vaidade” – “Que pena tenho do artista que depende de Freitas Valle para o seu pão”, escreveu. As últimas páginas do diário registram o abandono de Anita dos relatos para fazer esboços do que pode ser o início de sua fase nova-iorquina, já que se misturam notas em português e inglês. Depois de 1914, ela foi viver nos Estados Unidos.

Quarta-feira, 22/02

>>> Brasil: Uma antologia que reúne parte da contística de Virginia Woolf. É a nova edição de uma obra da escritora inglesa na coleção Mimo da Autêntica Editora

A edição da antiga Cosac Naify com toda a obra do gênero tornou-se padrão entre os leitores brasileiros. Há muito esgotada, a Autêntica encontra nessa lacuna uma possibilidade de corrigi-la e apresenta A arte da brevidade reúne aqueles cujas características de seus romances mais experimentais (a rejeição do realismo literário, o uso de técnicas narrativas pouco ortodoxas, a experimentação com a estrutura e a sintaxe) são recorrentes. A coletânea reúne assim títulos “O legado”, “A marca na parede”, “Objetos sólidos”, “A dama no espelho” e “Kew Gardens". A edição bilíngue com tradução de Tomaz Tadeu fará companhia a outros livros da escritoras apresentados pela casa, como Mrs Dalloway, Ao farol e Orlando.

>>>Colômbia: Mais de cinco décadas depois, leitores de regiões comandadas pelas Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC) terão acesso, pela primeira vez, a obras como Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez

É a maior homenagem que a Colômbia dedica ao seu maior escritor. Desde 1967, data da primeira edição de Cem anos de solidão, que a obra estava entre as proibidas de entrar em alguns territórios do país. Agora, o Ministério da Cultura juntamente com a Biblioteca Nacional, depois dos acordos de paz, começa a instalar um projeto cujo carro-chefe é a obra de Márquez. “Ler es mi cuento” pretende instalar vinte bibliotecas públicas e móveis em zonas pacificadoras. Cada biblioteca, além do livro do escritor Prêmio Nobel de Literatura, tem mais de quinhentos títulos entre impressos e digitais (que inclui romances, contos, poesia, história) e incorpora ainda um sistema de cinema com mais de trinta filmes entre outros atrativos. Pela primeira vez, Cem anos de solidão, a obra mais conhecida no mundo e desconhecida em casa, poderá chegar a todo país de Gabriel García Márquez.

>>> Brasil: Uma caixa com a Trilogia do Adeus, de João Anzanello Carrascoza; segundo a Alfaguara Brasil, em março nas livrarias

Nesta trilogia, Carrascoza oferece um panorama que se estende através do tempo para falar da relação fragmentada das famílias. No primeiro livro, Caderno de um ausente (vencedor do prêmio Jabuti 2015), o pai João escreve uma longa carta para a filha recém-nascida, Beatriz, para o caso de não estar presente no futuro dela. Já no segundo volume, Menina escrevendo com pai, é Bia quem responde, narrando a vida e o relacionamento dos dois. Por fim, em A pele da terra, Mateus, filho mais velho de João e irmão de Bia, narra sua relação com o próprio filho, outro João, durante uma peregrinação. Um olhar tríplice sobre os vínculos entre pais e filhos, e sobre como pequenas ações do cotidiano nos marcam para sempre.

Quinta-feira, 23/02

>>> Brasil: Um novo selo editorial. O Suplemento Pernambuco, publicado pela Companhia Editora de Pernambuco, vai criar um selo literário, comandado pelo editor da revista, Schneider Carpeggiani

O primeiro livro a sair em março é Genealogia da ferocidade, um ensaio inédito de Silviano Santiago sobre Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. No segundo semestre, virá o primeiro volume da série "Antologia fantástica da República Brasileira". A série é organizada por Jose Luiz Passos e reunirá e comentar textos dos séculos XIX e XX importantes para a reflexão sobre a República.

>>> Brasil: A nova edição de um clássico. Publicado em 1888, O Ateneu, de Raul Pompeia reaparece com material inédito do escritor

É um romance conhecido por carregar características de diversas manifestações artísticas. Para Emília Amaral, Doutora em Literatura pela Unicamp, "Raul Pompeia combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo". A professora assina a apresentação e as notas da obra, nas quais procura desvendar alguns de seus elementos fundamentais. Na edição agora publicada, apresentam-se caricaturas e ilustrações desenhadas pelo próprio autor, algumas das quais não utilizadas pelos editores na publicação original. O livro faz parte da Coleção Clássicos Ateliê.

Sexta-feira, 24/02

>>> Brasil: Edgar Allan Poe: medo clássico, uma sofisticada edição com novas traduções da obra de um dos mais importantes nomes da literatura estadunidense

Pela primeira vez, os contos de Poe estão divididos por temas que ajudam a visualizar a grandeza de sua obra: a morte, narradores homicidas, mulheres etéreas, aventuras, além das histórias completas do detetive Auguste Dupin, personagem que inspirou Sherlock Holmes. O livro apresenta ainda o famoso poema "O corvo" na sua versão original em inglês e nas traduções para o português de Machado Assis e de Fernando Pessoa, e o clássico ensaio sobre o poema, "A filosofia da composição" mais o prefácio do poeta francês Charles Baudelaire, admirador do autor e seu primeiro tradutor na França. O livro que sai pela DarkSide e com os contos traduzidos por Marcia Heloisa é uma homenagem ao mestre da literatura. Em formato capa dura e com projeto gráfico muito bem cuidado a obra traz xilogravuras do artista gráfico Ramon Rodrigues.

.........................
Sigam o Letras no FacebookTwitterTumblrGoogle+InstagramFlipboard

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Enclausurado, de Ian McEwan

Por Javier Aparacio Maydeu



Existem labirintos pelos quais dá gosto se perder. O que vem construindo Ian McEwan com conflitos morais transformados em frondosas ramagens é um deles. A casca de noz mencionada por Shakespeare em Hamlet (“Eu poderia viver recluso em uma casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”) é o útero materno de onde um feto se sente efetivamente rei do espaço infinito da consciência e de onde exerce-se enquanto narrador desta história sombria de traição e falsidade sobre qual reluz com frequência os raios de sol do humor e os gestos com que McEwan ilumina seus extraordinários emaranhados éticos.

Como em Hamlet, Claude assassina seu irmão, pai do protagonista; o feto narrador de Laurence Sterne vem-nos à mente e a melhor narrativa de Juan Marsé, Rabos de lagartixa, também; “manuscritos datilografados, lápis apontados, dois cinzeiros de vidro bem cheios, uma garrafa de uísque escocês, uma do suave single malte Tomintoul com dois dedos no fundo, um copo de cristal, uma mosca morta caída de costas dentro dele, várias aspirinas em cima de um lenço de papel não usado” parodiam o escritório de um editor. Esse feto que se abriga no u de Nutshell na capa da edição original realizada por Jonathan Cape, um filho não desejado que lê Joyce e aponta como Robert Park a qualidade dos vinhos, descobre o adultério de sua desapegada mãe Trudy (o leitor perceberá que numa página a personagem se converte numa Lolita grávida), descreve o pusilânime de seu pai John e repudia a banalidade de seu tio Claude (cujas estúpidas frases conclui sempre com a conjunção mas), é quem ajuíza com a mesma veemência com que denuncia a sujidade de nossa sociedade sem escrúpulos.

Que o feto julgue a mãe e que o futuro que representa seja produto do relato no presente no qual está situado o narrador, tudo em Enclausurado rompe com a ordem natural das coisas; mas McEwan é imenso porque nos abduz descobrindo-nos precisamente a desordem natural das coisas. Insere esta uma nova joia no colar já composto pela obsessão patológica de Amor sem fim, a atrocidade e a perda da inocência nessa impressionante mostra de engenharia narrativa que é Reparação, o cinismo moral de Amsterdã ou o dilema entre justiça e fé de seu romance anterior, A balada de Adam Henry.

Trudy e seu amante, Claude, tramam e consumam o assassinato de John, marido e irmão, respectivamente. Do seio materno, suspensa a incredulidade do leitor, o narrador atua como detetive e voyeur, formula hipóteses a partir do que escuta, infere e conjetura, e vê tudo da cegueira de sua condição de inquilino do corpo de mãe com quem mantém uma relação anatômica e também de divertido contorcionismo circense. Com o furor uterino da jovem mãe com o amante, o rumor uterino de seu filho emboscado, o bebê, assim como o louco, pode dizer ao leitor que o rei está nu (ou que mamãe é adúltera e assassina, que a existência é uma loteria, e que o mundo só finge estar em ordem). 

Um crime abjeto cometido por personagens de péssima raça que habitam uma propriedade hedionda cuja imundície não é senão o reflexo de sua natureza indecente. Não é Londres o cenário mas a condição humana, sempre disposta para o teatro do engano e o artifício. Enclausurado retrata a vileza do indivíduo com a câmera de um fotógrafo que não é proto-humano mas sobre-humano, esse feto que chamaríamos de um demiurgo, infortunado mas jocoso juiz que arbitra sobre o humano e o divino, que quis converter o autor que desfruta rindo-se da poesia do pai do narrador, quem pratica com tensão os trímetros trocaicos, e compadecendo-se em fazer do feto um catador, como McEwan, de Sancerres e Poulles.



Há dor existencial, genética recreativa, um assassinato (que Woody Allen logo filmaria), justificadas mas aqui não necessárias diatribes sobre nosso mundo decadente e sobretudo um poderoso contraste entre a possibilidade da vida inteligente por vir e a realidade de uma vida inconveniente que há tempos tem vindo para ficar.

E há imagens brilhantes (“curvado sobre eles como um pacato filatelista”; “o montinho esperançoso que sou eu, os tornozelos pálidos que não apanham sol, a sola sem rugas de um pé exposto, sua fileira de dedos inocentes que vão diminuindo de tamanho como crianças numa foto de família”) e, marca da casa, a técnica sofisticada e uma elegante narrativa meticulosa em que a vida cotidiana vai envolvendo-se numa intricada madeixa de sentimentos e trances anímicos que o romance desenlaça com perversa precisão.

É muito provável que McEwan seja o autor mais em forma da mítica geração Granta. Graham Swift ou Jonathan Coe são grandes mas perderam a relevância; e Amis e Barnes são gigantes mas irregulares. McEwan, que é capaz de exibir a desenvoltura de um narrador que não escreve do conforto fruto do prestígio, mas da ilusão sob a aparência dourada que insufla o mero desígnio narrativo, é sinônimo de consistência. Um mestre com vocação de aprendiz. Não pretende ficar em volta a nada e sempre cresce, surpreende e deslumbra.

Enclausurado parece um exercício de estilo em forma de thriller, algum apetitoso escarcéu metaficcional e um ponto de vista provocador, mas é outra indiscutível lição de literatura. Um assustador vaudeville metafísico, um drama com retranca (e várias doses de etilenoglicol e desgosto de um europeu maduro chamado Ian disfarçado de feto); parece o discurso de um afetado embrião sobre a condição humana, o mundo e sua derrocada a partir do pretexto de um grotesco assassinato. Olhar a vida de sua antessala conduz ver a morte como inevitável, física ou moral. E parece que já atormenta pensar a vida antes de vivê-la, adivinhar que o delito maior do homem é haver nascido. É, por fim, uma nova leitura irônica do ominoso e um regresso cúmplice e burlesco aos seus primeiros relatos, macabros e claustrofóbicos. Inteligência imprescindível.

* Este texto é uma tradução de "Un drama con retranca", publicado inicialmente no jornal El País.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Estrelas além do tempo, de Theodore Melfi

Por Maria Vaz



Não tenho a pretensão de deambular por conceitos absolutos e ideais que facilmente poderão ser catalogados como utópicos. O bom de escrever como espectador de um filme (que é arte) é não ter de atender a métodos científicos: aqui ‘sou’ eu, o pensamento, o papel em branco e toda a liberdade que algumas constituições ainda protegem, como a de expressão ou outras, inerentes ao livre desenvolvimento da personalidade. E dizer isto pode parecer deslocado, mas não o é. Este filme roda em torno da luta emancipatória de minorias, que eram cidadãs americanas, mas que possuíam menos direitos e liberdades do que aqueles que nasceram no mesmo país, com outro sexo ou outra cor de pele.

O filme faz-nos regredir no tempo. A um tempo pior do que este, em que, além de existir desigualdade entre géneros, era disseminada a discriminação com base na cor da pele. Agora imaginem um enredo em torno de três mulheres, de cor (com toda a ridicularidade desumana da expressão que empregarei porque perpassa todo o argumento do filme) e, por conseguinte, de classe média baixa. Tudo isto na sociedade norte-americana da década de 60 do século passado.

As histórias que deram vida ao argumento são reais, baseadas no livro de Margot Lee Shetterly, intitulado de Hidden Figures. The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race. A tradução do título [em Portugal] gerou o nome de ‘elementos secretos’, bem distante da tradução no Brasil, mas melhor acertada. Contudo, fazendo uma interpretação da obra original acho que deveria chamar-se de ‘elementos escondidos’. E porquê, perguntariam? Porque o que é secreto pressupõe uma certa cumplicidade e aceitação do secretismo. E aqui, pelo que vi, as três mulheres foram elementos escondidos pela sociedade machista e racista da sua época. No fundo, todo o enredo mostra a luta e a sobrevivência, em pequenos grandes detalhes inacreditáveis, pela emancipação feminina e pelo fim da discriminação racial.

As heroínas (reais) do filme são Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughn. Todas dotadas de uma mente brilhante. Todas geniais com os números e o cálculo. Por estarem sempre à frente da turma na escola facilmente ganharam bolsas de estudo e, depois, conseguiram emprego na Nasa. Só isso já teria sido uma vitória. Mas é só aí o início da história.

Lembramos que, por esta época, vivia-se o clima de Guerra Fria e toda a disputa acirrada entre os Estados Unidos da América e a Rússia no avanço aeroespacial. É nesse contexto de ‘estado de necessidade’ intelectual que a Nasa decide contratar mulheres negras, para fazerem cálculo e permanecerem em um edifício separado, em que não tivessem contacto com as restantes pessoas, com a excepção da supervisora que era branca.

Poderíamos perder-nos no debate da ridícula presunção de superioridade intelectual (e moral) da supervisora branca em relação às suas subordinadas de cor. Mas felizmente o filme gira em torno da superação dessa presunção tida como inilidível. Gira em torno da genialidade, da confiança e da perseverança. Gira em torno da necessidade de mudar alguma coisa, por elas mesmas e pelos outros. Gira em torno do espírito pioneiro. Vejamos porquê.

Após demonstrações de capacidade, Katherine e Mary são temporariamente promovidas. Mary vai auxiliar na construção das aeronaves e Katherine vai ajudar no cálculo das trajectórias, velocidade, locais estratégicos de descolagem e aterragem, etc. Dorothy permanece a trabalhar no edifício segregado, enquanto exerce funções de coordenação sem obter a merecida promoção ou beneficio salarial.

Quando Mary se muda percebe que deveria e queria ser engenheira. Todavia, o estado não lhe permitia, na medida em que a engenharia pertencia a um catálogo de cursos que só poderiam ser frequentados por cidadãos brancos. Contudo, após se revoltar com o sistema e consigo mesma, decide iniciar todos os esforços para o conseguir. E, no final, torna-se a primeira mulher engenheira da Nasa.

Katherine, de igual modo, teve vários problemas para que reconhecessem o mérito do seu trabalho. Através do seu raciocínio rápido conseguiu informações confidenciais e foi melhorando os seus cálculos. Nunca desistiu de encarar os desafios teóricos e do quotidiano discriminador e, pouco a pouco, provou que merecia assistir às reuniões (que nunca nenhuma mulher assistira) e assinar os relatórios de cálculo. Tornou-se uma peça essencial na missão espacial americana.

Dorothy, entretanto, percebera que a Nasa adquirira um computador – o IBM – e que ninguém sabia muito bem programa-lo ou perceber o seu funcionamento. Nessa medida, resolveu ir à biblioteca requisitar um livro para aprender. Resolveu, igualmente, ensinar o que aprendera a todas as suas colegas negras do edifício segregado: factor que depois a levou a ser supervisora do IBM e a escolher levar consigo as suas colegas, para constituírem a sua equipa.

Pelo meio do filme, vários pormenores prenderam a minha atenção. Vejamos. (1) No início do filme, as três amigas tiveram uma avaria com o carro, na estrada. A polícia surge e elas, ao invés de se sentirem protegidas, seguras e com ajuda, ficaram com medo. Afinal, o que fariam três mulheres negras, de vestido, paradas com um carro velho, que elas mesmas conduziam, no meio da estrada? (2) Só existiam casas de banho para pessoas de cor no edifício segregado, pelo que Katherine tinha de andar quilómetros para chegar até lá, todos os dias. (3) Não obstante a situação da deslocação para a casa de banho, criaram um tabuleiro com chávenas e caneca do café na sala de trabalho. Um tabuleiro que tinha assinalado: “pessoas de cor”. Primeira nota: Katherine era a única ‘pessoa de cor’ da sala. Segunda nota: a caneca nunca tinha café. (3) Quando Katherine se mudara para a nova sala, a supervisora avisou-a de que teria de ser comedida e discreta, em tudo, incluindo na roupa. Disse-lhe que só poderia usar um simples colar de pérolas. Primeira nota: Katherine, por ser mulher e negra, recebia mal (tinha 3 filhos) e não tinha dinheiro para o ‘simples’ colar de pérolas. Segunda nota: depois de uma boa dose de resistência, coragem e inteligência, katherine conquista os colegas e o seu supervisor que, ao saber que ficara noiva, decide oferecer-lhe o tal colar de pérolas. (4) Lembram-se do livro que deu a Dorothy o conhecimento para programar o IBM? Pois bem, esse livro encontrava-se na parte da biblioteca que só poderia ser requisitada por pessoas brancas (que era muito maior do que a destinada a pessoas de cor). Como lhe foi, então, parar às mãos? Dorothy furtou o livro da biblioteca. Quando o filho percebeu e a questionou ela explicou-lhe que contribuía com impostos para que comprassem os livros que ela não podia comprar e a que não podia aceder devido à cor da sua pele.  (5) Ao ir para a biblioteca com os filhos, Dorothy avistou manifestações pela igualdade racial. Com medo, disse imediatamente aos filhos para ficarem longe de confusões.

O filme deixou-me fascinada com duas falas que não poderia deixar de partilhar convosco. A primeira é proferida por Katherine em diálogo: “há direitos civis que não são civilizados”. A segunda é, igualmente de Katherine e foi proferida em um contexto de flirt. Isso mesmo. Quando um militar próximo das amigas tenta seduzir Katherine, perguntou-lhe o que ela fazia. Ela lá lhe disse que trabalhava na Nasa, em cálculo. Não tendo gostado da expressão facial do sr., não se inibiu de demonstrar a sua forte personalidade e disse: “não estou lá porque uso saias, mas porque uso óculos”. Achei brilhante!

O que mais podemos retirar do filme? Que nada é impossível! Afinal, elas foram pioneiras em domínios tradicionalmente ligados aos homens, em uma sociedade machista, que achava que o lugar da mulher era em casa, a cuidar dos filhos e a dedicar-se inteiramente à família. Estas três mulheres conseguiram ser tudo isso e muito mais. Jamais se anularam ou desistiram. Fiquei fã delas.

Antes de terminar deixo uma reflexão. Para Mary poder frequentar as aulas de engenharia teve de fazer uma petição ao juiz:  a lei do estado proibia-a. Teve de convencer o juiz de que, muito embora a lei o proibisse, há coisas que não fazem mal a ninguém. Ficamos no ‘não porque não? Por que não ser pioneira? Mostrou-lhe, através de pesquisa, que a vida do próprio juiz tinha sido pioneira em muitas coisas. Ele lá lhe concedeu a licença para assistir, dentro das especificidades do caso, muito embora só no regime nocturno. Mary teve sorte com o sistema de common law. Fica no ar a reflexão: pode (ou deve) a jurisprudência desempenhar um poder emancipatório? Ou é dever da lei fazê-lo? E quando ninguém o faz? Poderão pensar que o pensamento – esse quid imaterial –  é utópico: que existe sempre desigualdade; que o que importa é o concreto. Eu perguntarei: será que o concreto não precisa do abstracto, que o precede? Será que há prática sem teoria? Ou invertendo a questão: será que, sem mudarmos o pensamento, algum dia as minorias se integrarão? Existirá um eterno conflito? Ou se parar de existir quem exclua deixará de existir exclusão? Será que não se pode mudar o pensamento dos ‘exclusores’? Ninguém quer o pensamento por si e em si. Mas talvez, digo eu, ele seja a origem. A origem da mudança. A origem da prática: a menos que se aceite a prática aleatório-instintiva, aí sim, desprovida de razão. Concluo com uma pequena nota. Neste tempo , o do filme, já existia uma Declaração Universal dos Direitos Humanos. Já não existiam diferenças teóricas entre homens e cidadãos (como com a declaração francesa de 1789). Existia já, neste tempo, uma espécie de ‘emancipação prescritiva internacional’. De que vale, neste campo das minorias, a emancipação pela jurisprudência (condenável pela separação de poderes) ou pela lei (veja-se que os tratados internacionais têm natureza supra legal) se o pensamento das pessoas que compõe as sociedades (ou a dita sociedade global) continuar a segregar? A não aceitar a diferença?

Agora sim, do alto do meu idealismo: talvez pudéssemos viver todos livres, felizes e diferentes. Sem estereótipos. Sem imposições autoritárias que se esvaziam no ‘porque sim’ e no ‘porque não’. Desde que isso não faça mal a ninguém. Um dia qualquer.

“Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!”*

*Trecho da música ‘até quando’, de Gabriel o Pensador

***

Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Os 50 anos de "Três tristes tigres"

Por Juan Cruz 



Para quem havia lido Três tristes tigres (publicado em 1967, Prêmio Biblioteca Breve no mesmo ano e censurado) haveria de ficado estupefato cinco mais tarde ao ver sentado, quase mudo, seu autor, que com esse romance mudou o humor da literatura hispano-americana. TTT, como era abreviado, chega aos cinquenta anos da sua primeira edição e na reedição da obra inclui um apêndice com os registros da censura espanhola da época que não quis o romance publicado na versão original. “O conteúdo é pornográfico às vezes, desrespeitoso outras, imoral sempre”, disse o censor José Vila Selma. “Irreligiosidade, antimilitarismo, grosseria... O romance é realmente ileíble [sic]”, reafirmam os censores.

Guillermo Cabrera Infante nasceu em 1929, em Gibara, uma pequena cidade na costa leste de Cuba, e morreu em Londres, em 2005. Quando estava sentado assim, era 1972 e já então vivia no exílio com sua companheira, a atriz Miriam Gómez. Havia sido vitimado por um ataque de nervos que lhe veio enquanto trabalhava no roteiro de À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry. O escritor passou uma breve temporada em Hollywood como roteirista no início da década de setenta.

Havia ainda outras marcas mais duradouras naquele homem silencioso em Londres. O desterro começou a vir em 1965 e ao seu país natal nem Cabrera Infante e nem sua companheira voltaram ainda que a música e a atmosfera não tenham deixado de marcá-los. Três tristes tigres foi seu hino à alegria e à noite de Havana. Era um malabarista da escrita e este romance foi sua explosão.

O tiro saiu pela culatra. A censura contra Três tristes tigres não serviu para sepultar a obra como queriam os censores. E pode ter sido aí o exato momento de sua consolidação como um dos mais importantes livros do boom latino-americano, embora, já muito antes a censura houvesse lhe tocado: em 1952, foi acusado de escrever obscenidades num dos seus contos e obrigado a publicá-lo com o pseudônimo G. Caín. 

Miriam Gómez, que nunca deixou de se ocupar da obra do companheiro, relembra o tempo exato quando nasceu Três tristes tigres. Fidel Castro acabava de proclamar a censura revolucionária. "Pela Revolução, tudo; contra a Revolução, nada". Era 1961. E esse vendaval reacionário levou adiante no calor da hora escritores e revolucionários. "E foi nesse momento que Guillermo soube que ali não tinha nada a fazer", diz.

O escritor, entretanto, tinha muita força de concentração e começou a escrever "Ela cantava boleros", que tem vida própria no livro. Este foi o texto que lhe deu o diapasão para a narrativa e sua música que marca toda obra. Alguém havia contado a Cabrera Infante que Freddy (Fredesvinda) García Valdés, uma cantora da noite que havia ido embora para Porto Rico morrera e isso foi um golpe para o escritor, uma premonição sobre a obscuridade que começava a chegar às noites de Havana. Como se à ilha tivessem amputado seu ritmo. "E então começou a escrever sobre essa mulher ouvindo Billie Holiday". Na ocasião, Infante estava na direção de Lunes de la Revolución, um caderno e cultura e em certas ocasiões fazia as vezes de guarda revolucionária. Até que foi varrido do trabalho pelo vendaval Castro: "contra a Revolução, nada". "Ele dizia que foi o primeiro cafetão de Cuba, porque passou a viver do que eu ganhava", recorda Miriam.

Era um estoico: "Nunca vi ninguém tão estoico. Encontrava a felicidade nos livros, no cinema, no sexo... Em escrever, em ouvir música". Nesses anos em que a Revolução se colocou contra pessoas como Cabrera, ele seguiu narrando assim a noite de Freddy e do elenco exótico de personagens que povoam TTT. E continuou na Bélgica, o primeiro exílio para o qual foi enviado. À Bruxelas, Infante foi enviado como agregado cultural e foi quando aumentaram suas discordâncias com o governo que culminaria três anos depois no autoexílio em Londres. O pior lugar foi para Guillermo um bom lugar para escrever.

O irmão Saba (autor de P. M., documentário sobre a noite de Havana) acabou por levá-lo ao exílio definitivo. Foi quem convenceu-lhe a candidatar-se ao Prêmio Biblioteca Breve, já ganho por gente como Mario Vargas Llosa, e foi galardoado ainda quando era um cidadão cubano. Mas a censura o reteve; ao chegar em Cuba descobriu que precisaria mudar o livro a fim de que fosse publicado. Prontamente, fez. Era, em sua primeira versão, "uma celebração das mudança em Cuba, da noite em Havana"; depois "se deu conta de que tudo era um fracasso, um horror. Ele preferia morrer a continuar vivendo ali".

O caminho para o exílio foi lento, mas quando se abriu, em 1965, por sorte Guillermo e Miriam já estavam casados e é então quando decidem que jamais voltariam ao cenário daquela noite, da Havana de TTT. O livro foi malquisto em Cuba, onde continua sendo uma raridade e num tempo se trocava por latas de leite condensado.

Aquele Cabrera Infante sombrio em Londres ressuscitou logo. Escreveu ainda grandes romances, como Havana para um infante defunto, e colocou ordem (e desordem) toda sua abundante produção como escritor para cinema (Un oficio del siglo XX, Arcadia todas las noches). E como sonhava com os livros! Vicente Molina Foix diz que "Guillermo era um ventríloquo de seu romance". Depois de sua morte, vários novos títulos têm aparecido como Mapa desenhado por um espião ou Corpos divinos.

A casa de Cabrera Infante em Gloucester Road é lugar de peregrinação para quem leu Três tristes tigres. Era, como Havana, dividida em três lugares: na mesa da cozinha estava um mapa que lhe serviu para escrever Havana para um infante defunto; ali está sua enorme biblioteca, sua coleção de filmes. Uma atmosfera que lhe impedia de sair para buscar o mundo de fora: o mundo era a casa. E, a casa era Havana.

Sobre Três tigres tristes, disse o pensador Fernando Savater: "Esse livro de Guillermo, e não dizemos já conhecê-lo, nos revelou que um livro pode ser mais profundo, terno, emocionante e uma crítica feroz a uma situação ditatorial. Além disso, é enormemente divertido, consegue lhe fazer rir e encontrar situações humorísticas que logo não nos deixa esquecê-lo, é uma autêntica libertação".

Rosa Pereda, jornalista e crítica: "Está cheio de carne e sangue, de música e cor... Não acredito que seja um livro engraçado, embora ri muito com ele e continuo rindo. Mas é a história de uma esperança, escrita a partir da desilusão. Uma desilusão, certamente, muito precoce, ao já prever chegar nessa longa noite – essas longas noites – dos tigres peripatéticos pouco antes da Revolução".

Aquele Guillermo Cabrera Infante que nos recebeu triste em 1972 estava se recuperando não apenas do esforço de levar ao cinema uma obra de Lowry. Estava voltando a falar em meio ao trauma de um exílio que então deglutia ainda como uma bola de tristeza. Depois voltou a ser o que aparece pelas noites, ouvindo música, escutando como ela cantava boleros... Ela foi alguma vez não só Freddy, mas Havana.

Ligações a esta post:



* Este texto foi publicado no jornal El País com o título "Tres tristes tigres cumple 50 años de explosión de vida y literatura"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Yves Bonnefoy

Por Álex Vicente



Yves Bonnefoy terminou baixando a cabeça para essa “morte que diz não a toda metáfora”, como escreveu num de seus versos mais enigmáticos. O grande poeta francês, além de ensaísta e crítico de arte, professor universitário, tradutor de William Shakespeare e eterno candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, morreu em Paris aos 93 anos no dia 1º de julho de 2016. Ficou para trás uma vida dedicada à linguagem poética que considerava um instrumento com o qual buscava iluminar a penumbra. Para Bonnefoy, a poesia era uma forma de “libertar as relações entre os homens dos prejuízos, ideologias e ilusões que os empobrecem”.

Autor de um conjunto de obras traduzidas para trinta línguas, Bonnefoy propôs uma poesia ligada à realidade, que desconfiava de abstrações, conceitualismos e dogmas que havia visto fracassar. Temia pela desaparição de uma arte que considerava inerente à experiência de existir e acreditava que, se acontecesse, a própria sociedade sucumbiria. Temia pelo fim da poesia porque ele era sinônimo do fim do mundo. “A poesia faz com que passemos do espírito da possessão, impulsionador de equívocos e da guerra, ao desejo de participação simples e direta no mundo”, explicava. Bonnefoy se debatia entre o materialismo mais prosaico e “a preocupação inata pela transcendência”. Não tinha rejeição pelo lirismo, embora nunca por mero exibicionismo, e perseguiu um alumbramento metafísico a partir do meio natural, onipresente em seus versos. “Amo a terra, o que vejo me emociona”.

Bonnefoy nasceu em Tours em 1923 no interior de uma família modesta formada por um pai operário no setor ferroviário e uma professora de ensino básico. Depois de iniciar seus estudos em Poitiers, mudou-se para Paris em 1943 para se inscrever na Sorbonne. Instalou-se num pequeno apartamento da rive gauche e passou noites inteiras lendo Paul Éluard, Tristan Tzara, Antonin Artaud. Não tardou em aproximar-se do círculo de André Breton e os surrealistas tardios, onde se encontrava o belga Christian Dotremont, célebre por seus hologramas e mais tarde fundou o grupo Cobra. Bonnefoy compartilhava com os surrealistas seu apego “por intensificar a consciência e a palavra” a partir da linguagem poética. Mas sua poesia se inspirava no mundo sensível e diferia da inclinação surrealista pelo sonho, porta de acesso a dimensões paralelas. Por esse motivo, rompeu com o movimento em 1947, embora nunca negou a profunda influência que teve em sua obra.



Meia década mais tarde, Bonnefoy tinha finalizado sua primeira antologia, Do movimento e imobilidade de Douve (1953), a que se seguiram Pedra escrita (1965) e O território interior (1971), mescla de texto autobiográfico e ensaio sobre o Quattrocento italiano. “Frequentemente um sentimento de inquietude me invade ante as encruzilhadas. Parece-me que nesses momentos, que nesse lugar ou quase: aí, a dois passos sobre o caminho que não tomei ... se abre um país de uma essência mais elevada, onde poderia viver e que agora já perdi” – escreveu nesse livro.
Não por acaso, Bonnefoy encontrava na dúvida de Hamlet o fundamento da modernidade. E sentia ressoar em sua cabeça a máxima de seu admirado Rimbaud sobre a insatisfação crônica de tantos mortais: “A vida está noutra parte”.

Outras de suas obras de destaque são Contos em sonhos (1977), Início e fim da neve (1991), A chuva de verão (1999) e As tábuas curvas (2001). Em sua trajetória poética, sobressaem duas certezas existenciais: a morte e a imperfeição. “Amar a perfeição porque essa é o limiar, / E negá-la tão logo se conhece, esquecer a sua morte, / A imperfeição é a maior”, deixou escrito num de seus poemas de 1958.

No seu pequeno escritório, situado em Montmartre, Bonnefoy também trabalhou em seus ensaios sobre a história da arte. Escreveu sobre a arte gótica e barroca, além de assinar obras sobre Goya, Picasso, Mondrian, Giacometti, Balthus e Miró. Outra de suas atividades principais foi a tradução, que equiparava a poesia por basear-se numa transformação da linguagem. Traduziu para o francês uma diversidade de obras de Shakespeare e se aprofundou em aspectos ignorados na leitura do seu teatro, como a representação da mulher a partir das personagens femininas. Fez o mesmo com Keats, Yeats, Petrarca e Leopardi.




Apesar de o Nobel não lhe chegar às mãos, Bonnefoy recebeu outra diversidade de prêmios tão prestigiosos quanto, como o Grande Prêmio de Poesia da Academia Francesa em 1981 ou Goncourt de Poesia em 1987; também obteve o Prêmio da Feira de Guadalajara em 2013. “Os poemas têm significado. Quando se lê um é preciso perguntar à própria experiência, à memória. E a partir daí buscar a interpretação”, disse no seu discurso. Desde 1981, Bonnefoy era professor no Collège de France e ministrou aulas em numerosas universidades da Europa e dos Estados Unidos. Esteve casado com a atriz e escultora estadunidense Lucy Vines, com quem teve uma filha, Mathilde.

**

Abaixo, um catálogo com o discurso de Yves Bonnefoy por ocasião da recepção do Prêmio FIL de Literatura e de três poemas do poeta. 


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A poesia de um iconoclasta

Por Pedro Fernandes



O registro de um sismo. Assim pode ser descrita a atitude de Oswald de Andrade em reunir num só volume sua obra poética. Poesias reunidas apareceu pela primeira vez em 1945 e anos depois passou por reedições que incluíram outros trabalhos do gênero produzidos pelo poeta. Assim, a obra agora publicada pela Companhia das Letras num projeto inovador e que acrescenta aos textos então conhecidos muitos inéditos replica as marcas deixadas pela Poesia Pau Brasil e ao mesmo tempo amplia os argumentos que justificam a importância de Oswald para a literatura brasileira. Ao todo, são 22 textos inéditos pinçados de cadernos e folhas soltas que integram o Fundo Oswald de Andrade no Centro de Documentação Alexandre Eulalio da Universidade Estadual de Campinas.

Através do itinerário poético de Oswald é possível perceber algumas marcas caras à nossa poesia como a procura por uma voz original capaz de, ainda longe, ser percebida enquanto tal no âmbito de um projeto literário nacional. Não é o caso de ser esta necessidade um desejo perecível daqueles que o antecederam. Mas Oswald se situa entre os interessados em levar ao limite esse projeto de uma literatura genuinamente brasileira quando decide não apenas pelo tratamento temático de cor local, como era feito por outros poetas, e também a forma e estruturação da obra – algo semelhante ao que muitos outros haviam feito noutras literaturas: Ronsard e Musset na França, Moeriken e Uhland na Alemanha, Chaucer e Burns na Inglaterra ou Whitman nos Estados Unidos, como lê corretamente Paulo Prado no prefácio que escreve para Pau Brasil, o primeiro livro de Oswald.

Pau Brasil é a realização das necessidades apontadas nos manifestos dirigidos pelo poeta paulistano cuja importância sempre aparece reduzida, ao lado da Semana de Arte Moderna de 1922, como desencadeador do modernismo na literatura brasileira. Didatismos à parte, aqueles textos estão muito além desse simples dado historiográfico; eles apontam para a formação de uma teoria e de um pensamento nutridos da mesma força, porém independentes, dos manifestos produzidos na Europa e com os quais o próprio Oswald teve contato antes de voltar ao seu país natal. Isto é, sua ambição estava claramente marcada pelo mesmo desejo impulsivo da febre das vanguardas, ao ponto de reverter os quadros não só da nossa literatura mas da literatura de fora. E se pode dizer que, se esse desejo não se realizou tal como interessava ao poeta – devido as circunstâncias históricas e políticas que condenavam o Brasil ao lugar de submundo da cultura – suas marcas certamente estiveram nas bases de constituição de outros movimentos levados, estes sim, para fora das fronteiras nacionais, como foi com a Poesia Concreta e o Poema Processo.

Os manifestos de Oswald são ainda as primeiras teorizações sobre uma poesia nova e uma leitura antecipada de sua própria obra – a começar com os poemas do livro de 1925. O livro Pau Brasil saiu um ano depois do manifesto de mesmo nome. Nele, o poeta realiza uma série de apropriações, sobretudo temáticas e históricas, e transforma o material numa maneira diversa de se escrever poesia: a nudez do requintado e requentado jogo retórico comum à poética dos salões, a negação da forma pronta para a expressão do poema e a transformação da linguagem literária pelas forças da linguagem comum. O verso breve, destituído da sisudez, por exemplo, incorpora ora a brevidade da fala ora o humor popular, duas condições fundamentais no processo de transformação das formas literárias em qualquer literatura mas sempre tratado como irrelevância para os eruditos de nosso país, sempre compostos de uma elite acomodada em repetir os modelos ultrapassados do que aprendiam de fora e interessados no apagamento da cultura do povo. Não é demais acreditar que a elite intelectual do Brasil responde até hoje pelo crime de massacre da nossa cultura seja porque esteve interessada em filtrar numa bateia os falsos brilhantes seja porque produziu uma literatura postiça e inautêntica – inautêntica porque postiça.

Oswald teria tudo para cair na mesma cilada, mas há ovelhas negras em todo rebanho. Ao invés de se posicionar como um repetidor de formas preferiu insultar a velha elite arrefecida com o colorido tropical e das formas mais simples deu anima a uma linguagem autenticamente nossa, capaz de responder pelo registro de nossas fronteiras culturais dentro e fora do Brasil. Em Pau Brasil, o poeta revisa nossa própria história e com riso desbragado destrona a retórica balofa das versões oficiais. Sabe que a literatura é naturalmente a voz oficiosa – e por isso mesmo a mais genuína de dizer seu povo – e investe nesse trabalho.

A poesia de Oswald é impregnada duma ironia mordaz, cortante, do que ri na cara do covarde e o covarde não percebe o riso. Prova disso é o livro que publicará cinco anos depois do primeiro: Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade. Aqui, o poeta se apropria do julgamento sentenciado pelos eruditos que se riram de sua poesia para produzir um embaraço: não há assunto para a poesia porque todo assunto pode ser assunto de poesia. A volta corrosiva de sua voz contra o dogmatismo artístico-literário aparece num título que nega o livro que o antecede – “primeiro caderno” – e se perpetua pelas páginas seguintes ao misturar a escrita com o desenho livre e o tratamento sobre temas que evocam sua biografia e findam ao voltar aos lugares assumidos pela sua poesia em Pau Brasil.



Esse interesse de revelar a poesia na fronteira com outras expressões artísticas se reanima em títulos como Cântico dos cânticos para flauta e violão, o livro que sucede o de 1927, publicado mais de uma década depois do Primeiro caderno. Neste livro, Oswald roça nos temas mais líricos, produto, ao que parece de certo idílio revelado no livro anterior, e compõe, ainda atento à simplicidade dos dizeres, uma cantiga com tons de narrativa à maneira de uma extensa declaração de amor. É o poeta mais sisudo. Crescido e cansado da pilhéria? Não. Muito provavelmente descansando o riso a fim de revelar-se um aluno adolescente, depois de alfabetizado na escola Pau Brasil (menção ao registro impresso na abertura do livro Primeiro caderno). Ou seja, mesmo sisudo, Oswald rir-se.

A antologia, excluindo os inéditos agora apresentados, é um exercício crítico do próprio Oswald. Leia-se isso ao considerar os Poemas menores, alguns propositalmente datados e logo capazes de levar o leitor às relações com suas obras principais: “erro de português” e “epitáfio”, de 1925, por exemplo, são pela expressão e pela forma, poemas desconsiderados de Pau Brasil. “Hip! Hip! Hoover!”, de 1928, e “Glorioso destino do café”, de 1944, escritos que poderiam ser acrescentados a Pau Brasil e Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade respectivamente. Assim se apresentam, fora os poemas publicados em revistas e não recolhidos pelo autor na visita ao seu itinerário literário, os poemas inéditos agora reunidos na antologia.

A brevidade da obra poética de Oswald patente nos poucos livros que publicou e na dimensão desses livros atestam que sua obra esteve a serviço de um projeto maior: Oswald foi iconoclasta e  como tal seu interesse foi propiciar o levante dos seus contemporâneos a se desapegarem das antigas formas e se mostrarem capazes de levar adiante suas inquietações da maneira mais autêntica possível e assim inaugurar uma nova correnteza de forças criativas no cenário literário brasileiro. Dedicou-se mais a esse propósito que em produzir uma obra prolífica. Esse papel é muito caro à cena de qualquer manifestação artística em qualquer parte do mundo. Sem ele, estaríamos eternamente presos na órbita da repetição vazia. Este é outro acento revelado pela antologia agora publicada. 

Ligações a esta post: